Medo da Macumba

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Medo –sm 1 Perturbação resultante da ideia de um perigo real ou aparente ou da presença de alguma coisa estranha ou perigosa; pavor, susto, terror. 2 Apreensão. 3 Receio de ofender, de causar algum mal, de ser desagradável. sm pl Gestos ou visagens que causam susto.

Fonte: Dicionário Michaelis

Ela decidiu tirar a tarde de terça feira para surfar, aproveitando que não teria tanta gente na água como nos finais de semana. Olhou na internet as condições do mar, ventos e maré, e decidiu colocar a prancha no carro e seguir para algum lugar mais distante.

Era tanta a sua sede pelas ondas, que ficava se imaginado em cima de sua prancha, o vento batendo no seu corpo e aquela sensação de liberdade que só uma sessão de surfe pode proporcionar. Aumentou a música e se pôs a sonhar, enquanto passava pela avenida da praia, observando o mar de relance. Lá tinha muito vento, decidiu pisar fundo e continuar no caminho da orla. Barra, Reserva, Recreio, todas com o vento arruinando as ondas… Precisava de um lugar mais protegido. E apesar do vento, parecia que o mar estava subindo gradativamente, ou seja, garantia de altas ondas!

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Não tinha ninguém com quem pudesse dividir aquele momento, sacou o celular e ligou para sua prima que morava lá por aquelas bandas. Juntas, foram checar o canto do Recreio. Uma decepção o tamanho das ondas, condições bem menores do que nos outros picos. “Vamos pra Macumba!” sugeriu a prima. E porquê não? É logo ali ao lado… Seguiram com suas pranchinhas até o meio da Praia Macumba. “Olha lá no Canto direito da praia, tá liso e quebrando uma série boa sem ninguém!”. Para falar a verdade até  que estava grandinho o mar, maior do que parecia de longe. Começaram ansiosas a se preparar para entrar na água.

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Ela colocou seu maiô de neoprene e se alongou rapidamente. Sua prima apressada já estava remando e passando a arrebentação. Tudo pronto: parafina na prancha, cordinha no tornozelo, e pés na beira do mar. Mas… Algo estava faltando… Coragem?

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Ela paralisou olhando o mar, muito medo. O que estaria acontecendo comigo, ela se perguntou inconformada. Seu coração batia mais forte e um leve tremor tomava conta das suas pernas. Ela não entendia porque estava com tanto medo de entrar naquele mar, logo ela que já surfou tantos mares e sempre se considerou uma surfista destemida. Tinha um bom preparo físico, treinava dentro e fora d’água e estava com muita sede de surfar! Mas não. O medo tomou conta do seu corpo e ela não conseguia sequer se mover.

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Se forçava a lembrar dos mares que surfou fora do Brasil, muitos com fundo de pedra ou coral, rasos, e porque justamente naquele “marzinho” não conseguia entrar? Quase entrou, uma, duas vezes, mas hesitava e dava um passo para trás. Mais de quinze minutos se passaram. Olhou para os lados, ninguém poderia ajuda-la, a atitude teria que vir dela. O seu corpo estava tomado por um medo arrebatador.

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Decidiu por voltar para areia, cabisbaixa e desanimada. Sentou na canga enquanto tentava entender o que lhe havia acontecido para temer aquele mar, que nada tinha de assustador. Um dia de sol gostoso de começo de outono, que desperdício de tarde, ficar ali sentada na areia só olhando!

Voltou pra casa com a prancha seca e dirigiu em silêncio, sem mesmo ligar o rádio. Se sentia frustrada, pensou até em mudar de esporte. “Foi intuição”, avisou sua prima… É, talvez se tivesse tentado, teria quebrado a prancha, ou se machucado, ou machucado alguém. Sabe se lá, nunca saberia.

O surfe é um esporte individual, você precisa estar bem para entrar no mar. Ela não estava competindo com ninguém, surfava para se divertir. Então nada mais justo do que não praticar quando não se está à vontade. Cada um sabe dos seus limites físicos e psicológicos, e se não sabe, um dia vai descobrir.

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A semana se seguiu e ela assumiu que nunca saberia o que a fez ter tanto medo daquele mar de terça… Só você conhece suas aflições – e atire a primeira pedra quem falar que não tem medo – até a maior big rider do mundo tem lá o seu medinho. Cada um com o seu, às vezes descarado e irremediável, outros mais íntimos e misteriosos.

Essa história pode ser sua, minha, ou de qualquer um. Quando nos tornamos surfistas precisamos aprender acima de tudo a respeitar o mar. E, claro, respeitar a si mesma, com ou sem medo.

Fotos: reprodução

Por Bartira Bejarano